Fala de abertura do Sarau 1º de Maio – Joinville, 2015

Olá companheiros e companheiras,

No 1º de Maio de 1914, Neno Vasco (1878-1920), anarquista português que residira e militara no Brasil durante dez anos, alerta, no artigo “O Significado do 1º de Maio”, publicado na edição alusiva à data da Voz do Trabalhador:

Eis a festa do 1º de Maio, isto é, a manifestação proletária que a inconsciência de uns, a astúcia e velhacaria de outros e a cumplicidade de todos reduziram em tantas partes a uma absurda ‘festa do trabalho’, como lhe chamam os burgueses complacentes. […] Vós, só o podereis festejar quando tiverdes conquistado. E é dessa conquista que se trata, tanto no 1º de Maio como nos outros dias. (A Voz do Trabalhador, 53-64, 1914)

Pois bem, 101 anos depois, nos reunimos para trazer à memória o significado do 1º de maio. O ato de hoje é uma tentativa de construir uma identidade de organização das e dos oprimidos, combate frente todas as formas de dominação. Afinal, o 1ª de maio é uma data fundamental na história dos e das trabalhadoras: empregadas e desempregados, do campo e da cidade. Historiadores nos lembram que é o único feriado que é destinado para trabalhadores. A grande imprensa, os porta-vozes das entidades empresariais ou até mesmo os governantes tentam impor que é um dia de culto ao trabalho. É atitude para promover o esquecimento sobre a nossa própria história de luta, alegria, organização, incertezas, combates, paixões e conquistas com objetivos revolucionários. A medida tem como outra camada a tentativa de conciliar o inconciliável, que são os diferentes objetivos entre a classe dominante e a oprimida. Por isso, como membros da classe oprimida, nos fazemos presentes na promoção do Sarau 1º de maio.

Nas últimas décadas do século XIX, Oscar Neede, militante anarquista e funileiro, relatou o que vivenciou nos postos de trabalho nos EUA:

Eu trabalhava numa fábrica que fazia latas de óleo e caixas para chá. Foi o primeiro lugar em que vi crianças de 8 a 12 anos trabalharem como escravas nas máquinas. Quase todos os dias acontecia de um dedo ser mutilado. Mas o que isso importa… Elas eram remuneradas e mandadas para casa, e outras tomariam seus lugares.”

Neste cenário de exploração de homens e mulheres de todas idades, inclusive crianças, o capitalismo se consolidava como sistema econômico dominante e expandia o seu poder sob a tutela do Estado, o detentor do monopólio da violência, como escreveu Mikhail Bakunin.

O movimento operário com seu acúmulo de lutas e histórias de organização, como Iª Internacional, declarou nos EUA, o 1º de maio de 1886 como data que “a jornada de oito horas de trabalho passaria a vigorar, apesar dos capitalistas afirmarem que isso era impossível.

No entanto para tratar sobre o tema, exibimos a animação “Maio Nosso Maio”.

Para alguns companheiros e companheiras é possível dizer, com certo desdém; “Os tempos são outros, os problemas dos trabalhadores de 100 anos atrás são diferentes dos nossos. Hoje já conquistamos, temos de comemorar”. O curioso é que os patrões insistem em fazer acreditar que o 1º de maio é o dia do trabalho, escamoteando as relações de trabalho contemporâneas com permanências do passado, assim como a dominação capitalista no campo econômico.

A escritora Naomi Klein, ao aponta criticamente sobre o mundo do trabalho na globalização do capital em seu livro de 2006, que diz:

Em todas as zonas de exportação da Ásia, veem-se filas de adolescentes em camisetas azuis nas estradas, de mãos dadas com suas amigas e carregando guarda-chuas para protege-las do sol. Parecem estudantes indo para casa depois da escola. Em Cavite, como em toda parte, a grande maioria de trabalhadores é de mulheres solteiras entre 17 e 25 anos de idade. […] Mulheres são frequentemente demitidas de seus empregos na zona de exportação por volta dos 25 anos, ouvindo dos supervisores que elas são “velhas demais”, e que seus dedos não mais suficientes ágeis. Essa prática é uma muito eficaz de minimizar o número de mães na folha de pagamento da empresa.”

Alguém pode dizer que é equivoco buscar uma referência “extrema” do atual modelo econômico, como o relato de Naomi Klein.

Podemos mencionar as condições de trabalho presentes hoje em Joinville, como as jornadas dupla, sendo uma delas ou até mesmo as duas sem carteira assinada – como no caso dos imigrantes haitianos, muitos vivendo em moradia precárias, improvisadas e compartilhadas por outros e outras imigrantes nas mesmas condições.

É possível trazer para discussão as condições dos e das trabalhadoras das fábricas em Joinville, que mediante o cenário de crise e políticas de austeridade, veem suas entidades sindicais aceitar acordos que prejudicam a sua categoria.

Não é possível deixar de mencionar as condições impostas pelo governo Colombo aos trabalhadores e trabalhadoras da educação do Estado. Sem falar que, neste contexto, o sofrimento também é aplicado à juventude.

Ao falar em jovens, quando os estudantes buscam a sua organização nos grêmios estudantis para combater o desmantelamento da educação pública, o poder judiciário junto com a Secretária do Desenvolvimento Regional age para reprimir a luta estudantil.

Nas últimas semanas temos debatido também o projeto de lei da terceirização, a PL4330, apontada por muitos como o maior golpe da história aos direitos trabalhistas no Brasil, esses mesmos direitos que foram conquistas do movimento operário no início do século XX. É momento de dar resposta incisiva a esse ataque do governo e dos empresários, uma resposta que parta de todas e todos nós que lutamos, desde nossos espaços de inserção.

As classes dominantes massacram companheiros e companheiras. A opressão opera ainda mais forte para camaradas gays, lésbicas, trans, negros, imigrantes. Em Joinville, como mencionamos, não é diferente.

O Sarau 1º de Maio é o espaço destinado para cruzar a memória de luta com as experiências de hoje, tendo como enredo as diferentes manifestações criativas e combativas dos nossos companheiros e companheiras que se dispuseram a construir o ato com o Coletivo Anarquista Bandeira Negra.

– A atriz Grazi Sousa contará a história “O que os olhos não vêem”, de Ruth Rocha.

– Bez Vieira, membro do grupo de maracatu Morro do Ouro fará a leitura dos seus “Poemas Indestinais”.

– Kethelen Kohl estará com uma mostra dos seus trabalhos visuais com os títulos “Transconstruções” e Panotipos Comestíveis”.

– O Coletivo Muralista Pinte e Lute apresenta uma breve exposição com os trabalhos realizados nas paredes da cidade.

– O curso de iniciação teatral do Espaço Cultural Casa Iririú apresenta a peça “O homem que enganou a morte”.

– Momento Galeno será uma homenagem ao escritor uruguaio que tão inspirador foi com suas palavras latino-americanas.

– O evento encerra com a apresentação de estréia do projeto musical “Eu também sou Zé”, de Vinicius Ferreira.

Que o Sarau 1º de Maio seja uma modesta atividade para fazer do dia de hoje um momento de luta e luto. Que as nossas memórias de combate inspirem a nossa organização política e estimule a criação de uma cultura política que tenha como princípios norteadores a ação direta, a autogestão, a solidariedade, o classismo, a luta popular e um mundo socialista com liberdade, como bem cobrou Neno Vasco há 101 anos atrás.

Está aberto o Sarau!

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