De Chicago a Joinville, há 131 anos lembrando de luta e de luto

Posted on 08/05/2017 by

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Por Carlos de Oliveira

Segunda-feira, primeiro de maio de 2017, Itinga, zona sul de Joinville. Nunca este bairro amanheceu tão rubro-negro como nesta data. Faixas divulgavam: III Sarau 1º de Maio do Coletivo Anarquista Bandeira Negra (CABN). Poucos metros a frente já se avistara a Associação dos Moradores e Amigos do Bairro Itinga, a Amorabi. Lá, bandeiras pretas e vermelhas estavam estendidas em janelas, mesas e no palco principal onde pessoas apresentam seus espetáculos.

Dias antes houvera uma dedicação resistente e voluntária para que a atividade fosse regada de amor e rebeldia. Vassoura arranhava o piso, cordas voavam aos quatro cantos, e as cadeiras, uma por uma, eram enfileiradas e decoradas com a nova edição do jornal Luta Social. Esta, nova e primeira edição do novo jornal da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB).

O relógio na cozinha já marcara catorze horas da tarde. Os moradores do bairro se aproximavam do local que tanto precisou de mobilização para se conquistar. Crianças, jovens e velhos passavam pelo portão de cerca branca. Minutos depois apareciam aqueles e aquelas que já estiveram juntos em manifestações contra o aumento de tarifa do ônibus, luta por terra, desviando do quente gás de pimenta, das fumegantes balas de borracha e dos capangas que teimam em crivar com balas de perseguição e medo os que se organizam contra os poucos abastados.

Indígenas encostam seus instrumentos musicais enquanto algumas panelas de comida chegam para ser saboreada pelos guaranis. A comida é preparada em conjunto. Alguns cuidam dos alimentos verdes, vermelhos, brancos. Ao lado, o amarelo do detergente banha a esponja que desliza sobre pratos para ninguém ficar sem local para por comida.

O texto de abertura começa a ser narrado. Há 131 anos o 1º de Maio é o dia para lembrar e dar importância a todos e todas trabalhadores e trabalhadoras do mundo. Um dia para dedicar e homenagear os Mártires de Chicago. Oito pessoas. Mortas pelo governo e patrões. Todos que, hoje, ainda precisam dedicar seus esforços para enriquecer poucos, devem dedicar ao menos uma tarde do ano para Albert Parsons, Louis Lingg, Adolph Fischer, George Engel, August Spies, Michael Schwab, Samuel Fielden e Oscar Neebe.

Pessoas do Paraná, Rio Grande do Sul, São Francisco do Sul, Araquari, Florianópolis, Lages, estão atentas à programação e acompanham a jovem que lê crônicas escritas pelo jornalista Edgard Leuenroth. Aplaudem no ritmo das músicas que são entoadas pelos dedos que tocam as cordas de guitarras e violões. Emocionam-se pela fala da trabalhadora da educação e seu dia a dia como educadora.

As banquinhas reúnem produtos que estão longe dos espaços com vidros, cadeados e seguranças privados. Livros sobre a Espanha em 1936, bolsas que estampam meninas zapatistas e o velho Cartola, índios exibem seus artesanatos e o rapaz arruma caixas de alimentos livres de veneno, do mesmo grupo que recebera tiros da Polícia Militar poucos dias antes.

A parada na programação para a partilha reúne doces e salgados. Homens e mulheres. Moradores do Itinga e Aventureiro. Os de moletom e quem calça chinelo. Deveriam haver mais cafés em grupos durante o ano.

Nove ou dez crianças não sobem para ver o espetáculo do Abismo Teatro de Grupo, que apresentara a peça “Quem Roubou meu Futuro?”. Preferem demonstrar a habilidade futebolística no campinho com mais barro que grama. O goleiro, maior que todos os outros jogadores, corajoso feito uma águia, enfrenta a trave enferrujada para evitar qualquer gol. O único a vencê-lo é o menino que joga descalço, veste uma bermuda vermelha sangue e uma camiseta preta. O gol é no ângulo. A comemoração é com os companheiros de time. Ninguém roubará o futuro de quem veste rubro-negro.

 

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